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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Roda de Conversa: em defesa dos territórios quilombolas (17/10)



O Núcleo de Estudos em Cultura Jurídica e Atlântico Negro (Maré) se uniu a mobilização política do movimento quilombola protagonizada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) para o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239 que coloca em risco o Decreto n°4887/03. Neste sentido, realizaremos uma roda de conversa tematizando a importância do decreto 4.887/03, que regulamenta o processo de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras quilombolas. 

Em um contexto de retrocessos de direitos e de acentuada criminalização dos movimentos sociais, o projeto genocida da população negra no Brasil ganha novo fôlego – apenas este ano, 19 lideranças quilombolas foram brutalmente assassinadas no país. Nós, do Maré, realizamos um mapeamento preliminar dos grupos da UnB que tematizam as relações raciais em suas atividades de pesquisa, ensino, extensão, política, religiosa, artística e cultural, e os convidamos para estarem presentes na atividade e somarmos forças ao movimento quilombola para o julgamento que ocorrerá no dia 18 de outubro de 2017, às 14 horas, no Supremo Tribunal Federal. 

A atividade é aberta ao público e ocorrerá na terça-feira, 17 de outubro, às 14 horas, no Quilombo – Diretório Estudantil Negro da UnB. Contaremos com a participação da advogada do Centro Justiça Global, Raphaela Lopes, que acompanha e atua na ADI nº 3239, e com a presença de Célia Cristina e Givania Silva, representantes da CONAQ.

Serviço
Roda de Conversa: em defesa dos territórios quilombolas
Data: 17/10
Hora: 14:00 as 17:00hrs.
Local: Quilombo - ICC/UnB

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O QUE ACONTECE É MUITO DIFERENTE




Enquanto o clichê, bastante afastado da realidade, insiste em enxergar uma ameaçadora volta à senzala, algo muito diferente disso parece estar acontecendo com a população negra.

Na busca por razões que possam dar conta da desmobilização e o que entendem como passividade do “povo brasileiro”, alguns formadores de opinião preferem buscar marcas da sociedade colonial escravista no corpo de descendentes de africanos, maioria da população, e elegeram Debret e seus bonecos como a representação conveniente, que traria ainda o prestígio da autoridade cultural. 

Um problema para essa explicação cômoda e consoladora é que os negros não se mostram entorpecidos e há sinais evidentes, na conjuntura, de ampliação da mobilização, com destaque para as várias frentes do movimento de mulheres. Uma presença efetiva que vem se adensando, com envolvimento crescente da juventude inquieta.

Não é, deve-se realçar isso, uma intervenção política de tipo único que possa ser reduzida ou controlada dentro de limites partidários. Creio mesmo que as tendências principais que caracterizam o momento não têm origem em organizações partidárias.

Antes da internet, as iniciativas de movimento negro expandiam-se em um subterrâneo praticamente inalcançável por pautas jornalísticas e coberturas, as quais se mostravam indiferentes a fatos políticos que envolvessem o protagonismo de mulheres e homens negros. 

Hoje, que há uma avalanche de iniciativas facilmente acessíveis na web, impressiona a pouca atenção que continuam a receber das editorias, num momento, acrescente-se, “em que o jornal é mais lido em sua versão digital do que em sua versão impressa”. 

Campanhas, denúncias, marchas, transmissões de debates e palestras quase nunca são mencionadas pela grande mídia, que permanece aferrada a um paradigma que exclui sumariamente um grupo humano expressivo de suas preocupações.

O discurso da volta à senzala e das marcas do escravismo é expressão desse distanciamento, uma explicação ilusória que cria obstáculos para uma análise mais rigorosa. Nosso jornalismo nem imagina que negros possam colocar em questão o poder político, quando os negócios públicos e de Estado apresentam teor elevado de obscenidades, como assistimos na votação da última quarta-feira na Câmara dos Deputados.

Desprezam ainda o fato histórico de que a maior contribuição que demos à cultura brasileira é o fio contínuo, persistente, de nossa luta por liberdade e pela afirmação da dignidade humana de africanos e seus descendentes. Corta essa de volta à senzala.

As ruas e praças vazias devem ser encaradas como um problema político e que deve ser politicamente resolvido. Sem recorrer a atavismos e semelhantes. Há medo e insegurança porque a brutalidade policial irrompe a qualquer momento, diuturnamente vigilante, e o fortalecimento do narcotráfico acrescenta sempre novas formas de opressão. Mas quem fala em omissão e alheamento desconhece o cotidiano de mulheres negras e homens negros. Orientem-se, ou melhor, reorientem suas pautas e livrem-se de representações coletivas prisioneiras da miopia e da preguiça.

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Edson Lopes Cardoso
Jornalista e Doutor em educação pela Universidade de São Paulo

Fonte: bradonegro

Minicurso: Masculinidades Negras e Sistema Prisional (17 e 30/10)



A Diretoria de Diversidade - DIV em parceria com o Centro de Convivência Negra oferecem, através do programa facilitado de formação e informação, o minicurso: Masculinidades Negras e Sistema prisional com os facilitadores Marcos Queiroz e Rafael Oliveira.

O minicurso consiste numa série de diálogos sobre masculinidades, sobre sistema prisional e sobre as intersecções entre os dois, debatendo em como um influi no outro.

A dinâmica do evento vai se dar em forma de debates acerca das experiências dos participantes, fimes/documentários recomendados, textos motivadores e apresentações de convidados com esperência na área.

A príncipio, o cronograma prevê sete encontros semanais, todas as terças-feiras às 18h ás 20h, com possibilidade de adiamento ou acrescimo de alguns encontros, a depender do decorrer das discussões.
A ementa inicial também estará sujeta a mudanças, aliás, espera-se várias mudanças ao fim do minicurso.

Os encontros serão no auditório do Instituto de Ciências Sociais - ICS e quaulquer mudança será publicada no evento e notificada para cada participante.

O curso tem 40 vagas - com possibilidade de certificado - e por isso será necessário inscrição prévia, que abre nesta segunda-feira, dia 09/10/17. A inscrição será feita em particular com os facilitadores.
Priorizamos a presença de participantes negros!

Obrigado!

Link para a ementa:

Serviço
Minicurso: Masculinidades Negras e Sistema Prisional
Data: 17 e 31/10
Hora: 18hrs
Local: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília - ICS/UnB.

I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania








A Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania – do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, da Universidade de Brasília – promoverá I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania entre os dias 16, 17 e 18 de outubro de 2017, no Auditório Joaquim Nabuco, da Faculdade de Direito da UnB, a partir das 9h.

O I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania tem por objetivo apresentar as recentes pesquisas e dialogar com a complexidade que é a pesquisa em direitos humanos e cidadania na pós-graduação e realizar diálogos de saberes com as demais pós-graduações em direitos humanos no Brasil e no mundo.

A pesquisa em direitos humanos apresenta algumas singularidades que são instigantes e, ao mesmo tempo, desafiadoras na seara acadêmica, seja ela disciplinar seja interdisciplinar. Se, por um lado, firma suas bases na reflexão sobre questões urgentes da nossa comunidade mundial em relação às violações, à promoção e à proteção de direitos, por outro impõe-nos a quebra de paradigmas de metodologias de pesquisa mais tradicionais, provocando-nos a realizar diálogos mais plurais entre as diversas áreas do conhecimento.

Voltado para pesquisadores em direitos humanos, docentes, discentes, profissionais da área e comunidade em geral, o I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania parte das questões que nos afligem na produção do conhecimento na área dos direitos humanos, ou seja, debater os desafios da pesquisa disciplinar/interdisciplinar em direitos humanos; fomentar o debate em torno das diferentes áreas dos direitos humanos exploradas pelas linhas de pesquisa atuantes; e congregar os programas de Pós-Graduação em Direitos Humanos (PPGDH) para troca de experiências e saberes.

O I Congresso Internacional em Direitos Humanos e Cidadania será, ainda, um espaço para o debate sobre a situação da democracia no Brasil, na América Latina e no mundo.

Mesa: Comunidades Quilombolas e ADIN 3239 (16/10)


ATENÇÃO, AS TERRAS E COMUNIDADES QUILOMBOLAS CORREM PERIGO!

A Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239 proposta pelo Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM), questiona o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades quilombolas, conforme estabelecido pelo Decreto nº 4.887/2003. Na próxima quarta(18/10) o processo será novamente discutido no STF. Precisamos falar sobre e manifestar nosso apoio e somarmos com os quilombolas para que não tenhamos nem um quilombo a menos!

Chama o povo preto, indígena e trabalhadores da UnB pois, sabendo dos eventos que acontecerão: Lançamento do Comitê em Defesa da UnB e Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena - FNEEI/2017, propomos a unificação das pautas e assim sensibilizar mais pessoas no campus e na Esplanada dos Ministérios.

Serviço
Mesa: Comunidades Quilombolas e ADIN 3239
Data: 16/10 - Segunda-feira
Hora: 12:00 às 13:30
Local: Ceubinho - UnB.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Os Espaços de Brincar e as Crianças Negras

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É inquestionável a importância do ato de brincar durante a infância. São inúmeras as brincadeiras que acompanham as crianças na sua formação e farão parte do seu cotidiano até a vida adulta. E por isso, cada vez mais, surgem ‘espaços de brincar’ espalhados pela cidade.

São espaços lúdicos, acessíveis às crianças de 0 a 6 anos e que tem o objetivo de estimular as brincadeiras infantis, de forma interativa e descontraída.

Sabemos que através destes espaços as crianças constroem relações, exercitam a imaginação, a interação social, o desenvolvimento motor, a criatividade, as possibilidades de movimentos corporais e o desenvolvimento lúdico.

E cada vez mais, percebemos a importância de se ter espaços com representatividade na primeira infância para todas as crianças. Os “espaços de brincar” precisam ser pensados para receber crianças diferentes e principalmente, acolher estas diferenças.

Recentemente, fizemos uma visita ao espaço de brincar no centro, que foi inaugurado há poucas semanas, e tivemos uma surpresa extremamente agradável ao perceber neste espaço muitos Bonecos e Bonecas Negros de pano. Tecidos africanos ao lado dos tules. Bonecos com slings para as crianças fazerem as amarrações junto ao corpo. Bonecos de crochê. E muita música e cantigas tradicionais.

Em África, as relações entre o corpo, o movimento, a música e o lúdico são sempre interligadas e poder exercer isso, aqui em diáspora, no centro de São Paulo, de graça, com nossas crianças é também uma forma de construção e reconhecimento da nossa identidade.

O encantamento maior foi pelos bonecos de pano, com bonecas muçulmanas, indígenas, deficientes visuais… e com bonecos negros, de até 1 metro, vestidos com roupas de tecidos africanos e onde cada lado do rosto tem uma expressão diferente.

Precisamos de mais espaços acessíveis e representativos às nossas crianças negras durante a primeira infância, porque destas vivências iremos construir adultos mais fortalecidos, pela representatividade e valorização da autoestima.

A brincadeira, para além do lazer é uma necessidade infantil. É uma forma de interação, de exercício da capacidade de criação, da exploração de movimentos e está ligada ao desenvolvimento cognitivo, afetivo, motor, social. Estimular a possibilidade de brincar nas crianças é favorecer, inclusive, os seus aprendizados e sua formação.

É no momento de brincadeira que a criança faz a ponte entre o real e o imaginário, que externa os medos, as inseguranças, os sentimentos. E é por isso, que é importante a presença também dos responsáveis durante estes momentos. Nos espaços de Brincar, os adultos são bem-vindos e além de participar, irão interagir e brincar também com as crianças, formando e fortalecendo vínculos.

Vivemos em uma sociedade estruturalmente racista. E sabemos que o racismo tem um impacto devastador nas crianças. Crianças Negras estão expostas diariamente a situações de racismo e, por isso, muitas vezes elas irão negar e/ou rejeitar sua identidade e sua ancestralidade. Precisamos estar atentos aos impactos do racismo na infância. Cabe a nós, adultos, identificar as situações, orientar e propor estímulos que irão fortalecer e garantir respeito e igualdade desde a infância.

As brincadeiras e a interação com outras crianças, fora do ambiente familiar e fora do ambiente institucionalizado (como é a escola, por exemplo) pode ser um espaço muito rico tanto para observar a forma como a criança brinca, como a forma com que se relaciona com outras crianças e adultos presentes no mesmo espaço.

É um exercício muito grande para os adultos, durante uma simples brincadeira, estar atento aos espaços, às brincadeiras, os tipos de brinquedos, as outras crianças e tudo isso ao mesmo tempo. Mas é um exercício fundamental para que crianças negras possam brincar e fortalecer sua identidade, sem exposição a nenhuma reprodução de racismo.

É mais que entreter a criança, a brincadeira é um momento de ligação entre mundos, pessoas, histórias e ter ambientes que irão favorecer estas ligações são possibilidades ímpares e valiosíssimas.

Crianças Negras precisam ter acesso a espaços que as contemplem, nos brinquedos, nas brincadeiras, nos livros, nos tecidos. Está contido ali, neste espaço, um local que será presente e saudável para esta criança. E nossas crianças, precisam cada dia mais de espaços seguros, para crescerem saudáveis.


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Imagem de destaque – Adriano é filho da autora e foi fotografado por Júlia Andrade.


*Mayara Assunção. Filha da Dona Rita. É militante do Coletivo Kianda, Brincante de Cultura Popular, integrante do Bloco Afropercussivo Zumbiido e Mãe do Adriano.


A intolerância religiosa não vai calar os nossos tambores

Aumento de ataques aos terreiros e às religiões de matriz africana não revela só o avanço conservador, mas a influência do nosso passado escravista

Por Danilo Molina,


Os casos de violência e agressão contra templos e seguidores de religiões de matriz africana têm aumentado de forma assustadora em todo o Brasil.

Este ano, só no Rio de Janeiro, estado que historicamente apresenta o maior número de registros de intolerância religiosa no país, foram contabilizados, até o final de setembro, pelo menos 79 ataques contra terreiros ou adeptos de religiões de matriz africana, sendo 39 apenas nos últimos três meses.

Esse número é exatamente o mesmo do que o total de casos de denúncias registradas no Disque 100 do Governo Federal, no mesmo estado, em todo o ano de 2016. Entretanto, há um agravante nessa estatística. As 79 denúncias do ano passado englobam casos de intolerância contra qualquer religião, não apenas as de matrizes africana, apontando a tendência crescimento da violência contra nossos terreiros.

Há poucas semanas, terreiros de candomblé em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, foram alvejados. Em vídeo gravado pelos próprios criminosos, com grande repercussão nas redes sociais, uma mãe de santo aparece sendo intimidada pelos invasores, que a obrigam a quebrar objetos litúrgicos e imagens de santos do terreiro.

O show de horrores é acompanhado por ameaças dos marginais, que entoam “o sangue de Jesus tem poder”, “da próxima vez eu mato”, “safadeza!”, entre outros.

Entretanto, no Brasil, a intolerância religiosa não tem fronteiras estaduais. Em São Paulo, também neste ano, foram registrados 27 atos de violência contra templos e frequentadores de cultos de matriz africana, sendo oito nas últimas três semanas. Isso significa que, em média, nas últimas três semanas, a cada dois dias e meio houve um ato desse tipo de agressão em São Paulo.

Cartazes com dizeres neonazistas e xenófobos foram espalhados pelo município de Blumenau-SC, a poucas semanas do início da Oktoberfest, maior festa da colônia alemã no Brasil, que acontece na cidade catarinense.

Nas redes sociais, internautas denunciam as ameaças que constam nos cartazes: “Negro, comunista, antifa e macumbeiro. Estamos de olho em você”.

Em termos gerais, os dados do Disque 100 revelam que, em 2016, foram registradas 776 ocorrências de intolerância religiosa em todo país, um aumento de 36,5% em relação ao ano anterior. De 2014 para 2015, a situação foi ainda mais dramática. Os relatos passaram de 149 para 556, um crescimento de 273,1%.

Se considerarmos toda a série histórica, a situação fica ainda mais apavorante.

Verifica-se uma explosão de denúncias de intolerância religiosa, que passaram de apenas 15 casos em 2011 para os já mencionados 776 em 2016. E por mais que alguns setores conservadores da sociedade tentem desqualificar a questão, as religiões de matriz africana são indubitavelmente as principais vítimas desses ataques.

Na maioria das vezes (25,9%), os agressores são identificados como brancos e as situações de intolerância ocorrem predominantemente dentro das próprias casas (33,9%) e na rua (14,33%).

O perfil das vítimas aponta que os praticantes de umbanda e candomblé, somados aos que se identificam como adeptos de religiões de matriz africana diversas, são os alvos preferenciais dessa intolerância. Juntos, respondem por quase 25% das denúncias.

Isso em um país no qual essas religiões possuem algo em torno de 3,1 milhões de adeptos (1,6% da população), de acordo com o último censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010.

Os cerca de 123 milhões de católicos (64,6% dos brasileiros) relataram 1,8% dos casos de intolerância religiosa. Os protestantes, que somam 42,3 milhões de fiéis (22,2% da população), respondem por aproximadamente 3,8% dos registros de agressão.

Uma correta análise sobre essa alarmante realidade não deve se restringir ao simples avanço das forças conservadoras e obscurantistas em todo o mundo.

No caso do Brasil passa, necessariamente, pelo resgate de um passado colonial e escravagista que permeia, até os dias de hoje, a nossa cultura.

“Antros de feitiçaria”

As religiões de matrizes africanas nasceram dentro da senzala e eram reprimidas, inclusive com força policial, ainda no início do século XX.

Na Bahia, por exemplo, na década de 20, a imprensa local atacava duramente os terreiros de candomblé e a polícia reprimia e perseguia os capoeiristas, outra bela expressão da cultura de matriz africana. Artigos e matérias da época classificavam a religião como locais onde “ocorrem cenas monstruosas” e “antros de feitiçaria”.

O catolicismo chegou em terras brasileiras junto com os colonizadores portugueses, sendo uma religião de Estado, oficializada e imposta como parte essencial do processo de colonização.

A Igreja Católica deixou raízes profundas em nossa cultura. Foram as missões jesuíticas que assumiram a educação nos colégios do Brasil colônia e que introduziram a evangelização dos indígenas e, posteriormente, dos negros.

A estreita relação da Igreja Católica e o Estado, no Brasil, também foi intensa durante todo império. Era a igreja quem registava nascimentos, casamentos e mortes naquela época. Também contribuía para a manutenção de serviços hospitalares, notadamente, as Santas Casas. A estrutura da Igreja garantia a disciplina social dentro de limites que, por um longo período histórico, interessava aos colonizadores portugueses.

A Constituição de 1824 chegou a permitir o culto de outras religiões em nosso país, porém, com rigorosas restrições. Os cultos deveriam ocorrer de maneira doméstica e não poderia haver a identificação oficial de igrejas ou centros religiosos que não fossem católicos. A separação oficial entre o Estado e a igreja só ocorre após a proclamação da república, em 1890, logo após o fim da escravidão, quase quatro séculos após o descobrimento do Brasil.

O Ato nº 2º, complementar à referida Constituição de 1824, proibiu os negros de frequentarem escolas, pois eram considerados “doentes e portadores de moléstias contagiosas ”. Essa lei vigorou até, 1888, quando foi abolida tardiamente a escravidão no Brasil.

A Lei Áurea foi assinada depois que a escravidão já tinha sido abolida em toda a América. Países como República Dominicana (1822), Chile (1823), Bolívia (1826), México (1829), Paraguai e Uruguai (1842), Equador e Colômbia (1851), Argentina (1853), Venezuela e Peru (1854) e Cuba (1886) o fizeram antes do Brasil.

A simples abolição da escravidão e a permissão da prática de cultos religiosos diferentes do catolicismo não foram capazes de incluir os negros na sociedade brasileira. Nenhum mecanismo legal para realizar essa inclusão foi previsto.

Os negros, quase todos ex-escravos, foram relegados à própria sorte, em uma sociedade extremamente preconceituosa, sendo obrigados a enfrentar severas dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e à escolarização. Processo semelhante ao que ocorreu na aceitação da sua cultura e religião.

O fim da escravidão, da forma que se deu no Brasil, mergulhou o negro, estigmatizado pelo seu passado de senzala e chicote, em uma condição de subcidadania. Uma realidade de baixa escolaridade e de subemprego, que, infelizmente, perdura até os dias de hoje e explica porque durante tanto tempo fomos uma das sociedades mais desiguais do planeta.

Reparação 

As políticas de ação afirmativa no Brasil para mitigar a desigualdade social e a descriminação racial só começam a virar realidade no Século XXI, mais de um século depois da abolição da escravidão.

A 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e formas correlatas de Intolerância promovida pela Organização das Nações Unidas (Onu), em Durban, na África do Sul, seguramente contribuiu para fomentar essa nova agenda, corajosamente assumida pelos governos Lula e Dilma.

Mesmo assim, sofreu forte resistência de setores conservadores da sociedade brasileira, que se posicionaram frontalmente contra, por exemplo, a Lei de Cotas, aprovada em 2012 e sancionada pelo governo Dilma, para acesso diferenciado nas universidades federais para estudantes das escolas públicas, com recorte preferencial para famílias de baixa renda, negros e indígenas.

O projeto de lei das cotas nas universidades foi combatido durante 13 anos no parlamento por veículos da grande imprensa e até com ações judiciais. Não foi diferente com a discussão curricular da obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas nas escolas. Só em 2010, o presidente Lula sanciona a Lei 12.288, que institui o Estatuto da Igualdade Racial.

Apesar dos recentes esforços, a inclusão dos negros, nos mais diversos aspectos da vida social, permanece sendo um imenso desafio. Segundo o IBGE, em 2005, apenas 5,5% dos jovens pretos ou pardos de 18 a 24 anos frequentavam uma faculdade.

Na idade que deveriam estar na faculdade, 53,2% dos negros estão cursando nível fundamental ou médio. O percentual de brancos na mesma condição é de 29,1%.

O Censo da Educação Superior do Ministério da Educação aponta que em 2012, ano de sanção da Lei de Cotas, 2,6% dos alunos matriculados nas universidades brasileiras se declaravam negros. Em 2015, verificamos um avanço nesse percentual, que foi de 5,3%. Em números absolutos, saltamos de 187.576 negros na educação superior, em 2012, para 429.632, em 2015, um aumento de quase 130%, um salto inédito em nossa história.

Todo o passado colonial e escravocrata não pode ser desconsiderado quando olhamos para a intolerância e o preconceito, manifestos nas agressões contra os templos e os adeptos de religiões de matriz africana.

Não se trata apenas do preconceito contra uma religião específica, mas também contra todo um segmento da sociedade brasileira, marcado por um processo histórico de exclusão social profunda.

É inevitável a analogia entre os nossos terreiros e templos em chamas e as milhões de pessoas queimadas vivas nas fogueiras da inquisição, durante a idade média. E, apesar de todas essas agressões e violações, o Brasil sequer tipificou o crime de intolerância religiosa. Por isso mesmo, não há nenhuma punição prevista legalmente para esses tipos de crimes de ódio.

A marca da ignorância e da intolerância está na cicatriz na cabeça da menina Kailane Campos, agredida covardemente com uma pedrada no meio da rua, aos 11 anos de idade, quando saía de um culto religioso, no subúrbio do Rio de Janeiro, em 2015. Mesmo nesse caso emblemático, que teve repercussão nacional e ampla cobertura da imprensa, dois anos depois, os culpados continuam imunes.

Enquanto não enfrentarmos definitivamente as sequelas do nosso passado colonial e escravagista, nossos terreiros continuarão sendo vítimas do ódio da Casa-Grande. É nossa obrigação não aceitar o avanço dessa intolerância. A capacidade de resistência dessas manifestações culturais e religiosas foi forjada dentro das senzalas e é parte da luta e identidade da população negra, que tanta contribuição deu a construção da nossa nação.

Não podemos mais aceitar a escalada de intolerância. O respeito à diversidade cultural e a todas as religiões e manifestações do povo brasileiro é essencial para a consolidação da democracia e dos direitos das minorias em nosso país.

Nosso dever civilizatório é conviver e valorizar a diversidade e avançar para o respeito integral e para aceitação plena de nossos terreiros e nossos tambores.

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*Danilo Molina é jornalista, servidor de carreira e foi assessor especial da Casa Civil da Presidência da República e assessor do Ministério da Educação e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) no governo da presidenta Dilma Rousseff. Também é zelador do Centro de Umbanda Cavaleiros de Ogum, em Brasília (DF) e possui pós-graduação em Comunicação Pública.

Fonte: Carta Capital